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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

anuviar

assobiar gotas de água
dos olhos pro olhar
cristo trincando de mágoa
cristais incrustados no ar

chuva melando contrastes
desligando mundos
metamorfose hasteada
devendo devir

fertilidade em perecedouros
a eterna impermanência
da travessia sem pegadas

epifania do vento
virando romaria
     — nu
     vem!

domingo, 28 de agosto de 2016

discurso urso
absurdo surdo

luz

fogo humano
seu balé lamparina
espera que arde vela
lâmpada redoma de luz
segurá-la lanterna
aleluias de libertação
é Sol

vagalume

sobre isso que falava

luzes artificiais apagam os vagalumes

a raiz do ser não se move
irradia
noite original
e quando nasce é dia

lâmpada é ânfora do tempo
dente postiço na boca aberta
da vida

todavia, é obscena a atração
e à meia luz, toda a luz
é preciso criar-me
é preciso recriar o me

a leitura reversa

foi exatamente isto que andei fazendo nos últimos tempos...mais do que nunca.

acompanho amigos aqui, muitos leitores vorazes...

a leitura, quando se faz, também se dá por dentro.
no entanto, é preciso ouvir o grito silencioso do eu que se esvazia na vida...

tenho acompanhado minha vida mais atrás de mim, mais profundamente...acho que há algo nascendo ininterruptamente e que não nos damos conta...

penso que o amor é avassalador porque acaba com o ego (como diria Marcelo Ariel), a gente deixa de viver, vivendo...

o amor não é paciente, nem deixa a gente bondosa, nem nada suave...o amor é um caixote numa onda (que a gente quer que seja pra sempre)

ele apaga a gente, dilui, faz a gente escoar pro outro...

minha vida tem sido esse derramamento sobre os outros - os amados.

essa distância de mim, aproximou-me ainda mais do que sou...

uma loucura líquida e grossa entornada sobre...eles
é fundamental a leitura

sobretudo de si mesmo:

solitária

indigestão
a carne solitária
celada
como uma vela acesa na água
água-viva ascendendo a montanha
um bicho esquisito
desassemelhado
como uma verdade flagrada na névoa
deserta morada de uma flor
de pequeno bico como uma monja
uma pedra engastada
engasgado brilhante
muda

rouba x furta

o crime não compensa
o esvaziado sabor
alheio
o não

há pagamentos
altíssimos
apagamentos

tintas opacas no quadro
de Dorian
roubar palavras gestos alma
não honra

ela é iridescente
a]penas, furta cor

é preciso calar

é preciso calar
.


é preciso calar os silêncios
inflamando as urgências


é preciso colar
as distâncias
é preciso colher
pra cada fome secreta
é preciso colher
o que plantou seu pé

cada calo é
escrito em língua morta

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ele se leva

ele se leva de encompridar nos gestos
e me lava a rir de mil modos trans#bordados
seda com pontos ora frouxos ora apertadinhos
entre um lado da espinha e outro vazado pelo olho esquerdo
ascende para o voo ornamentado na estação de cor da bamba

aperta meu bico como se sugasse o elixir do amor
e o amor é esse alto da colina, por onde sai leite, água, calor dentro do abraço
para onde se vai no instante do querer precisar
ele se molha ditoso fazendo algazarra com as lágrimas da água
caem gracejando todas de sua pele nuvem propícia

ele pisca como se beliscasse a quinta nota a ser burilada
cata-vento do tempo a ser feito por seus dedos miúdos
pés são pães frescos a ensaiar os passos
ele grita aleluias e nascem hojes dos seus olhos e poros
o caminhar é esse levar-se que me deixa à sua espera

sou a espera e auxilio os primeiros passos da esperança
esse corpo afoito e novo que desconhece a imperfeição
veio a humanidade adivinhando
essa pessoa toda pureza tem os braços abertos e eles são
certeza de alcançar o sublime e vai tocando

ele ri como se descortinasse as janelas esvoaçantes dos peitos
tímidos desembrulhando a fé como presentes inventados
ele é meu poema mais concreto e nós somos imagens projetadas
em anagramas rearranjando palavras para um lirismo melhor

um mar de lama assola como quem ama
lambe tudo o que era [ ] borracha nas construções
ele é argila magia a ser manipulada com poções do pó de ser
e há



este foi um desafio poético para um trabalho docente do meu grande amigo Anderson Fonseca para apresentar poesia contemporânea aos seus alunos. estive entre outros poeta imensos e outros poemas belíssimos e o ave, também meu, aqui: http://lindagraal.blogspot.com.br/2012/02/ave-em-pigmentos-fotossinteticos.html