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sábado, 7 de julho de 2007

Árvore Branca

Recordações de uma nuvem
Pedro Gonio - 12/02/2007



...é ao caminhar que se catam pedaços de vida. Como se na quietude do passo, aproxima-se a um espaço ainda não percorrido para dentro. Quanto mais se anda mais se entra. Mas não me dava conta disso ao praticar a flânerie de meus anseios de mais vida. Era uma busca pelo corpo saudável para purgar a nicotina das noites em tragos. Sete voltas pelo aeroporto assim como quisera pisar numa asa por descuido para que os pés chegassem, acaso, onde sempre esteve minha cabeça. Quiçá o objetivo fosse, realmente, esse de cuidar por um equilíbrio insano de lançar-me aos céus inteira e comungar com sonhos de pássaros. No entanto, não dei por esse juízo e permanecia às voltas, como um cão, atrás do meu rabo para que pudesse dirigir com habilidade minha fantasia de vôo. Acompanha-me sempre a maternidade porque necessito do pertencimento em meio à orfandade da rua para tornar-me mais complacente e misericordiosa. Também para religar-me à eterna gravidez das calçadas. E assim caminho à margem. Testemunha ocular de sempre em redoma com meu passo à beira. E dessa vez em que tropeçava em minhas nodosas raízes, a árvore branca me encontrou. Branco o meu desejo de tarde grisalha. Retrato de nuvem. Brincava de nevar comigo em pálido sorriso, quase líquido. Babava em pétalas. Distraía-me de encostar meus pés ao chão. Vacilava de terra pisando em pedaços de seu leite floral. Escarnecia-me quebrar galhos sem rimas em nossa conversa ramificada. Um pano de fundo enciumado se rompeu em antiga lágrima que me grita. A flor branca entrou sob os tênis de pés apressados em não ver. No terceiro passo, virei-me na tentativa de adiar a partida ou — quem soube? — despedir e voltar ao entorno. Não a enxerguei. Porventura jamais a alcançaria novamente. Um poste, uma nuvem, talvez um desejo.


03:40h
20/04/2007

11 comentários:

  1. Lindo texto.

    Um abraço.

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  2. seu texto é o primeiro que leio e sinto ser visceral, pulsante, que move meus sentidos e exige de mim uma atenção maior, acho que este seu texto pode ser continuado, parece que é o incio de uma história numa busca de si mesmo e me deixou curioso para descobrir uma continuação, ele é muito bom , anos atrás eu li um livro de contos de um escritora baiana, o livro até era prefaciado pelo ivan junqueira, bem os contos tinham esse mesmo ritmo e estrutura, e veja acho que esta forma de escrita é singular das boas escritoras brasileiras femininas, percebo isto em algumas amigas que sao escritoras nes ta baiana na bruna berber, e hoje em vc, meus parabens muito gostoso de ler

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  3. que lindo Bia, lindi, lindo, lindo.
    tão doce, tocante... com um quê estranho de coisa próxima e aconchegante.
    Amei.

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  4. ERNANI FRAGA3:15 PM

    Arvore branca remete-me diretamente a Clarice Lispector, pelo intimismo pictórico. É um texto denso, visceral e belo como tudo que é muito triste e que se sintetiza na percepção afiada como uma faca: " branco o meu desejo de tarde grisalha". Poesia em prosa da melhor qualidade. Adorei.

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  5. de fato. poesia em prosa. mas gosto desse texto por outro motivo: porque revejo nele algo q sempre vejo quando leio os teus textos. não é tristeza não. é outra coisa: um misto de crueldade e fatalismo, não sei. gosto das analogias que vc constrói com o natural, tudo o que o homem é e de como vc humaniza o que não é o homem. "calçadas grávidas". clariceano sim. mas calro, pra uma leitora de clarice n poderia ser diferente.

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  6. Catar pedaços de vida... pétalas... pegadas de perfumes... Sim, teu texto pulsa, vibra, exala aromas azulados, respinga orvalhos, deixa vazar algo da seiva vital e poética... Beijos, bela!

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  7. Eu acredito que os cães sonham com pássaros estranhos em noites chuvosas. Mas cães com olhos de névoas, por mais tristes que sejam.

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  8. acabei de acessar a comunidade literatura contemporanea e no primeiro tópico pesquisado me deparo com tamanho presente em textura de árvora branca
    parabéns, muito lindo o texto
    andré

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  9. texto bem feminino, poesia em prosa que remete a Clarice, a Manoel de Barros, estas adjacências entre humano e natural.
    Muito bom.
    Walmir
    http://walmir.carvalho.zip.net

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  10. É um poema repleto de imagens e transcende a imaginação do meu "eu"
    Não se pode chegar a luz, sem antes vencer as trevas. Menina, você conseguiu pintar um sonho mágico, vestindo de alma a prodigiosa semântica.
    Parabéns...

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