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terça-feira, 17 de julho de 2007

Blefe de sobriedade

A chegada da Esperança, a da Morte
futiLE_ - 25jan2007


Bianca tinha olhos de ressaca, como Capitu, e uma existência menos verdadeira do que a da personagem. Talvez olhos de chuva. Encharcados. Ouviu falar que pasta de dente seca espinhas. Quando escurecia lá fora, Bianca esbranquiçava. Ficava como Sayuri: de neve. E não era gueixa, mas possuía os dotes artísticos e estéticos que a tornavam uma figura fascinante. Igualmente, não era dona da própria vida, escorregadias eram as suas rédeas. Não podia consigo mesma. Foi assim que se fez infecunda. Árida época instalava-se na murchidão de uma alma que se priva de viço. Seco era seu peito ao voltar a casa, já não tão certa de pertencê-la e vice-versa. Chegou um tempo de não haver mais reconhecimento entre ambas. Doloroso segredo o de não caber no seu espaço mais íntimo. Sobretudo, a iniciativa aversiva do receptáculo era uma afronta à proprietária que cansou de violentar o sentimento enviesado. Trégua. Chegava indesejando continuamente, arrastando-se entre os livros. Guardava um pouco de si em porta-batons e simulacros espelhados. Dissimulava-se bravamente, branca que era [aparentemente...quase brilhante]. Tentativa de posar a felicidade em reflexos. Mas Bianca era uma lacuna nesta noite. Definhada. Uma melodia caetana soava do rádio que esquecera ligado. Seria bom cantar enquanto lavasse os artefatos de mesa sempre posta pra ninguém. Estratégia silenciosa de algum aconchego preterido. Todavia, não havia. Ao abrir a torneira, Bianca surpreendeu-se com a omissão da água. Seu prédio estava em pleno blefe de sobriedade. Evidentemente que o apartamento e ela comungavam da mesma secura. Não deu por essa coincidência e também não ficou triste, de todo. Competiu-lhe absolutamente a reserva. Empilhou suas diversas caixas — tem compulsão por caixas. O que será que pretende guardar? — por cima da mesa em desforra pela auto-antropofagia. Com a mesma preguiça blasè que qualquer hiato proporciona, não arrumara a cama e enchera-a de objetos para segurar a solidão um pouco menos fria, menos longe. Bianca deitou na cama, empurrou os livros para o outro lado e esperou a música como se se aspira a um ato sexual, aguardou a penetração, abeirada que estava na tediosa noite. O som enchera a terrosa menina de então que, em turgescência, pôs-se aos prantos. Lágrimas caíram quentes no travesseiro como que desocupando a gravidade dos olhos abertos demais. Distraiu-se em sono. Os raios primeiros do dia usavam como pretexto as cortinas — sempre permissivas — de seu apartamento para despertá-la, alegando responsabilidade solar. A água notou que Bianca não a impedia por toda à noite, pois se olvidou da torneira aberta como que em ousadia estéril. Seu apartamento entrou em pileque. Todo comedimento bulia com livros e papéis e caixas e sapatos e roupas. Incomodada com a residência sem cômodos que flutuava inteira sobre seus olhos de chuva ainda, a mulher que mora numa casa de água, rio.




05/2007

13 comentários:

  1. A Bianca estava só, amas agora podemos nos aproximar dela, graças a essa bem intrincada e concisa narração q captou essa menina estranhamente interessante, que como a aproximação com a Capitu, tbm seria digna de um caber num romance.

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  2. a noite é uma torneira jorrando num conto de beatriz bajo. encontro aqui, minha casa, minha amiga e você, como no último poema encontramonos nós três, em desuso, mas desusados... por que vc me percorre tanto num conto?

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  3. Adorei o conto e o refinado estilo teu, Bia. Diferente de mim, sua prosa é delicada, macia, envolvente. Vc tem uma delicadeza muito grande com seus personagens e em alguns trechos, deliciosamente me lembra Anais Nin. Taí... Virei aqui com maior frequência te visitar.
    Bjo e Parabén! Aqui ta 10

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  4. se o olho é água, se o olho alarga, se o olho alaga, talvez nada disso e os três. fluir-escritas tem dessas coisas. como sempre, parabéns.

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  5. gopstei muito do seu espaço, grande abraço

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  6. Li o seu conto a pareceu-me bem escrito.
    Vou ver se volto um outro dia, para ler o que escreveu antes.

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  7. Que delícia.

    Um abraço.

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  8. Bia.
    fiquei estupefata (tô adorando essa palavra!)

    adorei, querida.
    Texto lindo.

    Beijo

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  9. Beatriz...adorei te conhecer. Além de linda tá escrevendo pra cacete..qq dia desses vamos tomar uma catuaba selvagem juntos! Beijos

    foca

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  10. Fiquei sem fôlego ao chegar à metade do conto,ansiosa por chegar ao término da história e,sempre encantada com o seu estilo.
    Um abraço,
    Gerlane

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  11. Muito bom o texto e para a secura de alguém que se refugia na solidão, a agua da torneira e de suas próprias lágrimas vieram socorrê-la mesmo que por um instante... Amo a maneira como escreves.

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  12. bonito prosa/poesia. Uma descrição que aproxima escritora e personagem em belas imagens.
    Paz e bom humor, sempre.
    Walmir
    http://walmir.carvalho.zip.net

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  13. Mariza Grimmer8:22 AM

    Lindo conto, Linda Graal. Lágrimas e torneira inundam de poesia a página.

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