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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Mahmud Darwich

No dia 09 de agosto de 2008 morre o poeta MAHMUD DARWICH (palestino, 1942-2008) e eu só fui ler seus poemas agora, através do blogue amigo de Rubens Jardim. Parece que apenas um de seus livros foi editado em Portugal – O jardim adormecido e outros poemas (Ed. Campo das Letras, seleção e tradução de Albano Martins).

Assim diz o poeta:

A minha imagem pública permanece mais forte do que a minha inquietação. Eu sou o que se designa como "o poeta da palestina" e requer-se de mim que fixe o meu lugar na língua, que proteja a minha realidade do mito e domine uma e outra, para ser ao mesmo tempo parte da História e testemunha do que ela me fez sofrer.
É por isso que o meu direito a um futuro implica revolta contra o presente e defesa da legitimidade da minha existência no passado. A minha poesia está assim transformada em prova de existência ou de nada.

Achei importante deixar alguns poemas desse gênio do lirismo que avassala as almas.
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Também nós amamos a vida

Também nós amamos a vida quando podemos
Dançamos entre dois mártires e no meio deles
erguemos um minarete de violetas ou uma
palmeira.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Ao bicho-da-seda roubamos um fio para tecer
o nosso céu e estancar este êxodo.
Abrimos a porta do jardim para que o jasmim saia
para a rua como um dia bonito.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Na morada que escolhemos, cultivamos plantas
vivazes e recolhemos os mortos.
Sopramos na flauta a cor da distância,
desenhamos um relincho no pó do caminho.
E escrevemos os nossos nomes, pedra a pedra. Tu,
ó raio, ilumina a nossa noite, ilumina-a um pouco.

Também nós amamos a vida quando podemos.


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Uma nuvem na minha mão
Fere-me uma nuvem na mão: não
quero da terra mais do que
esta terra: o cheiro do cardamomo e da palha
entre o meu pai e o cavalo.
Na minha mão há uma nuvem que me feriu, mas
não quero do sol mais do
que a bola laranja, mais do que
o ouro que derramam as palavras ouvidas.
***Selaram os cavalos,
não sabem por quê,
mas selaram os cavalos
no final da noite, e esperaram
sair um fantasma das rachaduras...

tradução de Michel Sleiman


Carteira de identidade

Registra-me!
sou árabe
número de minha identidade é cinqüenta mil
tenho oito filhos
e o nono... virá logo depois do verão!
vais te irritar por acaso?
Registra-me!
sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos
arranco pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?

Registra-me!
sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes...
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai... da família do arado
e não dos senhores do Nujub¹
e meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum

Registra-me
sou árabe
sou árabe
cabelos... negros
olhos... castanhos
sinais particulares
um kuffiah² e uma faixa na cabeça
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amo acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho
meu endereço
sou de um povoado perdido... esquecido
de ruas sem nome
e todos os seus homens... no campo e na pedreira
amam o comunismo
vais te irritar por acaso?

Registra-me
sou árabe
tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados
e da terra que cultivava
com meus filhos
e não os deixastes
nem a nossos descendentes
mais que estes seixos
que nosso governo tomará também
como se diz
vamos!
escreve
bem no alto da primeira página
que não odeio os homens
que eu não agrido ninguém
mas... se me esfomeiam
como a carne de quem me despoja
e cuidado... cuida-te
de minha fome
e minha cólera.

1 Célebre tribo da Arábia
2 Lenço com desenhos quadriculados, usado para cobrir a cabeça e
que tornou-se símbolo nacional palestino pela liberdade e independência.
Originariamente, esse lenço é usado pelos camponeses para
protegerem a cabeça durante o trabalho no campo.

Se você não existisse

Se eu não existisse ninguém me inventaria,
Poeta não é como o pão que mata a fome,
Matar tua fome, tua sede, isto eu não poderia,
Se eu fosse inventado, só saberia rimar teu nome.

Se eu não existisse falta também eu não faria,
Sou um desses derradeiros que a rima consome,
E mesmo que elas ecoassem ninguém ouviria,
Num mundo onde o ódio já tatuou o homem.

Mesmo assim ainda te rimo nas horas de silêncio,
Te quero sem os pudores de uma criança no berço,
Nas asas de um unicórnio alado, quero a magia.

Mesmo assim ainda te rimo, sou teu benquerer
Minhas rimas seriam nada, ocas sem você,
E se você não existisse eu te inventaria.


Árvore dos salmos

No dia em que minhas palavras forem terra…
Serei um amigo para o perfilhamento do trigo
No dia em que minhas palavras forem ira
Serei amigo das correntes
No dia em que minhas palavras forem pedras
Serei um amigo para represar
No dia em que minhas palavras forem uma rebelião
Serei um amigo para terremotos
No dia em que minhas palavras forem maçãs de sabor amargo
Serei um amigo para o otimismo
Mas quando minhas palavras se transformarem em mel…
Moscas cobrirão
Meus lábios!…

2 comentários:

  1. Olá, Bia...
    ... aqui destes meus 47 anos me pego surpreso com a falta de engajamento, seja para lá ou para cá, na maioria das vezes o oco das discussões leva o verbo direto para o limbo...na maioria das vezes engolimos o teor pasteurizado dos noticiários e nos sentimos tão bem informados...não que tenhamos obrigações cheias de ranço, antipatia e tristeza, mas é preciso que saibamos que a maioria dos terrenos é minado...
    Também eu não conhecia o poeta, e que belo poeta, e que bela iniciativa, garota...aplausos!!!

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  2. obrigada, querido!
    concordo contigo e também fui feliz em encontrar esses versos estupendos... sorte nossa que existem as frestas... não há contenções ao lirismo e ainda bem.

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